quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Os Mistérios de Baphomet Parte IV


Devido a eficiência de sua ideação, Levi propositalmente faz com que se acredite que exatamente esta forma de Baphomet era a presente na celebração dos Antigos Mistérios.

Apesar de Levi ter conseguido conceber uma arrebatadora e sintética efígie, recheando-a de múltiplos significados, não há como aceitá-la como sendo o “verdadeiro” Baphomet, senão um fruto da fértil imaginação religiosa do Abade.

Indo um pouco além, diríamos até que esta idéia foi, entre outras influências, livremente inspirada pela curiosa representação do Diabo, esculpida alguns anos antes, em 1842 no pórtico da Igreja de Saint-Merri, em Paris.


De qualquer modo, pelo texto de Levi, fica claro que para conceber a “figura exata deste imperador da noite”, para usar as palavras do próprio Abade, ele recebeu forte influência de uma série de informações advindas das mais diversas culturas.

Assim, seja sua fonte os desenhos e ídolos descobertos por Von Hammer, seja o Egito ou a Grécia, ou as culturas hebréia, cristã ou gnóstica e até mesmo de Zoroastro, Levi, de cada uma delas foi extraindo elementos para conceber o seu extraordinário Bode do Sabbath.


Contudo, apesar das variadas fontes alegadas, valerá ao estudante mais atento examinar, com cuidado redobrado, a gravura denominada “ Hermafrodita de Khunrath”, citada como fonte pelo honesto Abade, visto ela guardar notáveis semelhanças com a concepção do Bode de Mendes, de Levi.


A figura emblemática do Bode de Mendes de Eliphas Levi foi uma das primeiras, senão a primeira, que associou o bode ao ídolo Templário.

É muito provável, dada a condição de sacerdote católico do Abade Alfonse Louis Constatnt, que a imagem Bíblica do sacrifício do Bode Expiatório tenha lhe servido de inspiração.

O bode no Egito, entretanto, não possuía um significado religioso grande, exceto por este culto sacrificial, promovido na cidade de Mendes. Daí a denominação escolhida por Levi, o Bode de Mendes.


Porém, é significativo mencionar que o bode, do mesmo modo como atribuído ao carneiro, sempre foi símbolo de fertilidade, de libido e força vital.

Contudo, enquanto o carneiro assume características solares, o bode se relaciona às lunares.

Em outras palavras, é costume relacionar carneiros, ou cordeiros, como símbolos de aspectos considerados “positivos” das divindades, enquanto que aos bodes estariam reservados os “negativos”.


Assim, se naquele convencionou-se associar uma imagem de pureza, vida e santidade, neste são associados luxúria, sacrifício e perversão.

Em ambos os casos, contudo, é importante salientar que tanto o carneiro quanto o bode são claros símbolos de divindades solares, sendo que no primeiro tem-se a exaltação da divindade, enquanto que no segundo a expiação e morte do deus.


Numa variação deste símbolo, o carneiro é substituído por outro bode, passando-se assim a dois bodes utilizados ritualisticamente.

A primeira menção deste culto ocorre no Levítico, exatamente no mencionado Culto do Bode Expiatório.

Nesta ocasião, durante as festividades, o Sacerdote recebia dois bodes e de acordo com o resultado de uma escolha aleatória um deles seria imolado enquanto o outro era posto em liberdade.


Não deixa de ser interessante se lembrarmos do Rito de escolha entre Jesus e Barrabás, onde um foi sacrificado e o outro posto em liberdade.
O mais importante para o momento, entretanto, é lembrar que tais considerações trazem, em si mesmas, um eterno jogo de contrários, apresentados ora na forma de um aspecto luminoso, ora na forma de um feitio sombrio.

O dualismo é a característica mais evidente da gravura de Eliphas Levi.


Nela encontramos propriedades masculinas e femininas, diurnas e noturnas, sugerindo o equilíbrio da criação através do retorno a androginia primordial.

A mística sufi, inclusive, uma herança islâmica supostamente absorvida pelos Templários, menciona que apenas existirá a salvação se for superada a ilusão da dualidade deste mundo de aparências e erros, pelo retorno à unicidade original.


As inscrições SOLVE e COAGULA da imagem de Eliphas Levi são outro claro exemplo do enfoque dualista de seu Baphomet.

Originalmente presentes nos antebraços do “Hermafrodita de Khunrath”, estes dois preceitos misteriosos mostram que o Andrógino domina completamente o mundo elementar, agindo sobre a natureza, de modo inteiramente onipotente.


As inscrições são dois pólos que marcam o clico solar de Vida, composta de Geração, Nascimento e Morte, para depois haver uma nova Geração que dará continuidade ao interminável ciclo da Vida.

A fórmula Solve et Coagula, todavia, não se resume apenas na vida material.


Podemos entender aqui que o espírito pouco evoluído, ou primário, encontrará os meios pelos quais possa ser transformado em espírito evoluído, superior.

A esta propriedade de transformação, ou melhor, ao elemento que permite esta transformação, os Mestres deram o nome de Mercúrio Filosofal, ou Água dos Sábios, a mesma Tintura de Sabedoria, da qual falava o gnóstico Basilides ainda no século II.


A imagem do Baphomet de Eliphas Levi, enfim, é a representação emblemática deste Mercúrio Filosofal ou do Andrógino Primordial.
Também de Eliphas Levi vem outra curiosa explanação sobre a origem do nome Baphomet, que se tornou voga nos dias de hoje.


Segundo o erudito Abade, esta palavra era a forma cifrada de se dizer TemOHPAB, uma espécie de acróstico inverso de Baphomet, que formaria a sentença iniciática Templi Omnium Hominum Pacis ABbas. A explicação do acróstico, contudo, não traz maiores esclarecimentos ao termo Baphomet, senão a já bem conhecida menção a Unidade Primeira.


Seguindo com a teoria que aponta Baphomet como o Hermafrodita, pode ser feito um extraordinário paralelo entre esta efígie e a citação bíblica “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher”.


Mas examinando o texto em latim encontraremos: ad imaginem suam Dei creavit illum, masculum et feminam creavit eo, ou seja “à sua imagem Deus o criou, o criou macho e fêmea“.


Assim, conforme mostram as Sagradas Escrituras, Deus criou um Adão que era, ao mesmo tempo, macho e fêmea, um Andrógino.

Adão, portanto, o primeiro "homem" criado, foi dotado com as duas naturezas do andrógino. Baphomet então surge como um ícone tardio para o homem primordial, Adão.
As alusões sobre a expressão Baphomet, ora apresentadas, são de extrema valia para os estudantes do simbolismo mágico e iniciático.

Não obstante o volume de ponderações feitas já ser considerável, uma nova e recente forma de abordagem destes Mistérios vem ganhando terreno no estudo da Tradição, principalmente nos aspectos relacionados ao que hoje se convencionou chamar de neo-templarismo e neo-gnosticismo.

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